A Redenção de Sísifo
Felipe Fernandes Pinheiro | 20 de agosto de 2026
Felipe Fernandes Pinheiro | 20 de agosto de 2026
Após a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 221/19 pela Câmara dos Deputados, conhecida como PEC do fim da escala 6x1, o tema voltou a ocupar espaço de destaque no noticiário nacional. Entre os aspectos mais debatidos, destacam-se pesquisas de mercado que apontam potenciais impactos negativos da medida sobre a economia, especialmente em relação aos custos das empresas, aos níveis de emprego e à competitividade de determinados setores.[1]
Tais previsões, no entanto, são mais especulativas do que conclusões cientificamente fundamentadas. Seus resultados devem ser analisados com cautela, sobretudo diante da complexidade dos efeitos que serão produzidos nas relações de trabalho. Não por acaso, outras pesquisas apontam justamente na direção oposta, projetando ganhos de produtividade, aumento do consumo e geração de novos postos de trabalho.[2]
Entretanto, a centralidade dada aos impactos econômicos da proposta parece mascarar a questão central em debate. Afinal, se a preocupação fosse apenas com a preservação da competitividade ou alguns pontos percentuais do PIB, a conclusão lógica seria simples: ampliar a jornada de trabalho dos trabalhadores e submetê-los todos à escala 6x1.
Parece evidente, porém, que essa não é a questão central. O problema não se resume apenas à produção econômica, mas, sobretudo, a quem suporta o ônus dessa produção. Por que determinadas categorias profissionais — especialmente aquelas socialmente menos valorizadas — continuam submetidas a regimes de trabalho extenuantes, enquanto outras desfrutam de jornadas mais flexíveis e maior tempo para descanso, convivência familiar, lazer e desenvolvimento pessoal?
Não há dúvidas de que os altos executivos, gestores, líderes e coordenadores de diversos segmentos corporativos frequentemente enfrentam jornadas de trabalho extensas e elevados níveis de estresse e problemas de saúde mental. Ainda assim, não passa despercebido que os edifícios corporativos da Faria Lima e da Berrini permanecem vazios aos finais de semana. A Avenida Paulista, inclusive, impede o trânsito de carros aos domingos. Em contrapartida, supermercados, restaurantes e postos de gasolina seguem funcionando a pleno vapor.
E essa não é apenas uma constatação empírica. Dados divulgados pela VR Consultoria apontam que 38% dos trabalhadores da Classe E submetidos à escala 6x1 – aqueles que recebem até um salário mínimo mensal – trabalham entre 54 e 64 horas semanais. Na Classe A, cuja renda familiar ultrapassa quinze salários mínimos mensais, apenas 8% trabalham tempo semelhante. Esse padrão se repete entre os trabalhadores da jornada 5x2: enquanto 30% dos integrantes da Classe E trabalham além das 44 horas semanais, esse percentual cai para 17% entre os trabalhadores da Classe A.[3]
Outro levantamento, realizado pelo Observatório do Estado Social Brasileiro, constatou que 68% dos profissionais submetidos à escala 6x1 recebem até um salário mínimo e meio por mês.[4] Já dados do IPEA mostram que mais de 83% dos trabalhadores que cumprem 44h semanais possuem baixa escolaridade (até o ensino médio) e recebem, em média, 58% menos do que os que trabalham 40h semanais.[5]
Em termos práticos, quanto mais baixa a classe social e menor o poder aquisitivo, maior o excesso de jornada e mais frequente a imposição da escala 6x1. Há, portanto, uma nítida inversão de prestígio. As ocupações menos valorizadas socialmente – e que seriam as mais afetadas pela redução de jornada – são, em grande medida, indispensáveis à organização social e ao funcionamento da economia. Não por acaso, muitas delas figuram entre os serviços ou atividades essenciais elencados pelo art. 10 da Lei n. 7.783/89, que regulamenta o exercício do direito de greve.
Essa contradição foi bem explorada pelo antropólogo norte-americano David Graeber. Em sua obra, ele distingue entre os “trabalhos de bosta” (shit jobs) e os “trabalhos-bosta” (bullshit jobs). Enquanto os primeiros são mal remunerados, frequentemente exaustivos, mas socialmente indispensáveis – como os trabalhadores de limpeza, atendentes, seguranças, transporte, entregadores e tantos outros que garantem o funcionamento da sociedade; os segundos são aqueles cuja utilidade social é tão duvidosa que nem mesmo os próprios executores conseguem explicar sua razão de existir. São empregos marcados por burocracia excessiva, relatórios que ninguém lê, planilhas sem função, reuniões improdutivas e processos produtivos cuja principal função é justificar sua própria existência.
A tese de Graeber é respaldada por pesquisas sobre a organização contemporânea do trabalho. Em 2016, um estudo publicado pela Workfront, empresa de software dos EUA, concluiu que apenas 39% da jornada de trabalho era dedicada a atividades verdadeiramente importantes. O restante era consumido por reuniões, e-mails e tarefas administrativas de utilidade questionável.[6]
O paradoxo é evidente. A sociedade remunera generosamente uma parcela considerável de atividades cuja relevância prática é discutível, enquanto reserva salários menores, jornadas mais extensas e menor reconhecimento justamente àqueles que desempenham funções indispensáveis.
Essa inversão de valores remete ao mito de Sísifo. Na mitologia grega, Sísifo foi condenado pelos deuses a empurrar eternamente uma pedra até o topo de uma montanha, de onde voltava a cair sempre que alcançava o cume, obrigando-o a recomeçar o esforço sem jamais concluir a tarefa. Sua punição era a mais terrível de todas: a execução de um trabalho inútil.
A sociedade contemporânea, ao privilegiar o trabalho inútil em detrimento daquele essencial à organização social, parece ter operado uma curiosa redenção de Sísifo. O trabalho sem sentido já não é mais uma punição e, em muitos casos, ele é recompensado com prestígio, alta remuneração e melhores condições de vida. A punição moderna parece recair justamente sobre aqueles que realizam os trabalhos mais necessários, como os que limpam as cidades, transportam pessoas, abastecem os mercados, garantem a segurança e mantêm em funcionamento serviços essenciais. Quanto mais indispensável o trabalho, menor tende a ser o reconhecimento social a quem o executa.
A discussão sobre a escala 6x1, portanto, não trata apenas de produtividade ou crescimento econômico. O que realmente está em discussão, ainda que de maneira oculta, é a forma como a sociedade distribui reconhecimento, dignidade e tempo de vida.
[1] Alguns exemplos podem ser encontrados em: https://forbes.com.br/forbes-money/2026/05/menos-trabalho-precos-mais-altos-como-o-fim-da-escala-6x1-podera-afetar-a-economia/; https://www.fecomercio.com.br/noticia/dez-impactos-negativos-do-fim-da-escala-6x1?%2Fnoticia%2Fdez-impactos-negativos-do-fim-da-escala-6x1=; https://veja.abril.com.br/brasil/fim-da-escala-6x1-provocaria-impacto-negativo-bilionario-em-prefeituras-aponta-estudo/.
[2] Alguns exemplos podem ser encontrados em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/economia/audio/2026-05/trabalhadores-e-empregados-falam-dos-beneficios-do-fim-da-escala-6x1; https://repositorio.ipea.gov.br/server/api/core/bitstreams/7083c3f2-81ee-48e6-a525-c9fe4b56d5e7/content; https://www.gov.br/secom/pt-br/acompanhe-a-secom/noticias/2026/02/estudo-aponta-que-reducao-da-jornada-pode-gerar-4-5-milhoes-de-empregos-e-reforca-debate-sobre-o-fim-da-escala-6x1.
[4] https://www.brasildefato.com.br/2025/08/01/atlas-escala-6x1-dados/.
[6] https://www.bbc.com/portuguese/revista-61106902 e https://exame.com/carreira/so-39-do-expediente-de-trabalho-e-produtivo-diz-estudo/.
Felipe Fernandes Pinheiro é advogado formado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho pela Escola de Direito da Fundação Getulio Vargas, mestre em Direito do Trabalho pela PUC-SP, doutorando em Direito do Trabalho pela PUC-SP. Membro dos grupos Novas Dimensões das Relações de Trabalho e da Efetividade dos Direitos Trabalhistas (vinculado ao Programa de Pós-Graduação da PUC-SP) e ALAF (Associação Latina de Futuros).